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Lugar de Fala – o que é isso?

24 de agosto de 2016 , In: Comunicando, Direitos , With: No Comments
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Se tem um termo que mete mais medo na internet que a música da Simone na época de Natal é o tal “lugar de fala”. E isso talvez se deva por ser muitas vezes utilizado de forma errônea pelos ativistas das esferas virtuais.

Hoje rolou um grande bafafá por conta do anúncio chocante da revista Vogue de apoio às Paralimpíadas (você já deve ter visto e não vou dar mais view para aquela coisa) e me vi envolvida novamente em um debate sobre lugar de fala.

Tenho amigas queridas que enxergam o termo como um cala boca, uma outra versão do “essa é a minha opinião e ponto, não tem conversa”.

Bem, tudo que o termo não quer é impedir o diálogo, pelo contrário. Ele quer exatamente torná-lo mais produtivo e reflexivo, fazendo com que as pessoas pensem um pouquinho antes de decidir o que é bom ou não para aquela minoria que ela nunca viu, nem comeu (ops!), só ouve falar.

Então o que é isso?

Lugar de fala foi traduzido liricamente por Caetano assim: “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”. Desde o nascimento (e até antes) nosso eu está sendo construído por um sistema social e político que estrutura a sociedade e é por nós estruturado. Esse sistema determina o que é bom e o que é ruim, o que está ou não no padrão. Os excluídos do sistema que se danem.

Se você teve a sorte de nascer homem, branco, hetero, classe média/alta, sem deficiências, você ganhou estrelinha de ouro do sistema.

Se por acaso você saiu dessa rota – e nasceu mulher, negra, transexual, classe baixa, com deficiência, chora mais, porque não será nada fácil sua vidinha nesse mundo padronizado.

A partir daí, cada um terá sua vivência. E não tenha dúvida que a vivência do ser perfeito para o comercial de margarina será completamente diferente da vivência da negra periférica trans cadeirante.

Então que esse homem e essa mulher fazem amizade no facebook. Aquelas amizades estranhas, sem muito contato, o homem era amigo do amigo da amiga, e assim foi. Um belo dia a mulher faz uma postagem revoltada com uma propaganda racista que foi veiculada na televisão e o homem, cheio de mansplaining (se não sabe o que é isso clica aqui) explicar para ela que não, não é racismo, é apenas uma forma de dar visibilidade à causa (qualquer semelhança na historinha não é mera coincidência).

A mulher explica, pacientemente, porque é racismo. Ele continua negando e debatendo até a morte.

Porque ele não consegue entender?

Porque não é o lugar de fala dele. Ele não sabe a dor e a delícia de ser o que ela é. Ele não calçou os sapatos dela e, por isso, não consegue ver o que ela vê.

“Ah, mas ele tem uma namorada/irmã/tia/coloque o que quiser aqui – negra! Ele sabe sim!”

Não, amiga, não sabe, vai por mim. Eu achava que sabia um pouco o que era ter um filho autista, já que tenho amigas que têm. E não, eu não fazia ideia, só agora, com meu leãozinho em casa, é que percebo isso.

“Ah, mas então você não pode falar sobre o tema, afinal, seu filho é autista, não você. “

Quando ele crescer, assim será. Por enquanto, o autismo dele vem transformando muito a minha vida… em diversos aspectos!

“Poxa, então eu não posso falar mais nada? Isso é censura! Pior que carteirada acadêmica!”

Você pode falar o que quiser, amiga. Que tal chegar naquele amigo seu babaca e conversar com ele sobre machismo? Ou naquele irmão capacitista e explicar o motivo desse comercial ser o close errado de 2016? O que sugiro (e isso não lhe impede de fazer) é se ater ao lugar de fala quando estiver conversando com alguém de uma minoria da qual você não faz parte. Esse “se ater” não é se calar, é se ver ali no papel de aprendiz, não de professor, de apoio, não de protagonista. É bem diferente de se calar.

“Ah, mas a minha amiga é cadeirante e ela achou o comercial legal. É o lugar de fala dela, então ela está certa, né?”

Errado. Lugar de fala não é diploma de sabedoria e conhecimento. Conheço diversas mulheres que repudiam o feminismo e que não veem machismo em nada, mesmo quando sofrem com ele diariamente.

O conhecimento não se baseia apenas na nossa vivência e isso é fato. Ele também é adquirido no trabalho, em estudos, na troca de informações com outras pessoas. E TODOS (coloco em maiúsculo pra gritar mesmo) e TODAS fomos estruturadas no mesmo sistema social que fomenta o preconceito contra as minorias. Se temos acesso ao conhecimento de como esse sistema influencia nossos pensamentos e ações, se buscamos em primeiro lugar desconstruí-lo em nós, mesmo não pertencendo a determinada minoria, nós conseguimos enxergar o sapato que não calçamos: para alguns isso se chama empatia, para outros respeito mesmo. E se não fazemos isso, mesmo pertencendo a determinada minoria, nos tornamos escravos da opressão, felizes como sapos em caldeirões de água quente.

“Ah, mas então esse lugar de fala não existe, já que mesmo eu não sendo da minoria x eu posso estudar e me desconstruir a ponto de me colocar no lugar da pessoa.”

Minha amiga, se um dia você chegar nesse ponto alto de desconstrução, acredito que, ao invés de tentar apontar para aquela mulher negra que nem tudo que ela acha que é racismo o é, você vai descobrir a sabedoria que existe no silêncio e no abraço do apoiador.

Bora exercitar? 😉

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