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17 de junho de 2017 , In: Aprendendo com o autismo, Comunicando , With: 3 Comments
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Amigas e amigos, frequentemente, me marcam em postagens relacionadas ao autismo. Seja na divulgação de um filme, uma história “comovente”, um novo “tratamento”, eles sempre lembram de mim, afinal, eu falo sobre autismo constantemente, tanto que, essa página, que deveria falar sobre direitos humanos de forma geral, a cada dia está mais focada no tema autismo.

Lendo esses textos ou mesmo assistindo aos filmes indicados percebo o quanto preciso, cada vez mais, falar sobre o autismo. Para desmistificá-lo, para trazê-lo para a realidade das outras pessoas.

É muito raro eu ver um artigo em um jornal ou site de entretenimento que fale sobre autismo sem que tenha um conteúdo psicofóbico, uma visão distorcida da condição ou um personagem em um filme que não caia no estereótipo do “autista padrão”.

Até porque, convenhamos, muitos médicos, psicólogos e psicopedagogos têm a mesma visão distorcida. Até pais e mães de autistas têm! Como exigir que meus amigos e amigas, que não vivem a minha realidade, que nunca tiveram acesso às informações que (exaustivamente e teimosamente) pesquisei, pesquisa essa feita muito por conta da falta de conhecimento dos profissionais que procurei quando o filhote começou a apresentar o atraso na fala, consigam perceber o preconceito embutido neles?

Confesso que , muitas vezes, eu me irrito e acabo dando uma reposta atravessada, o que peço desculpas de coração. Eu vejo o post, leio o texto e pá: lá está a frase psicofóbica, leviana, promovendo mitos sobre a condição que já foram derrubados faz tempo. Ou então é aquela história “comovente” que, como diz a Stella Young neste vídeo, nada mais é do que um pornô de inspiração: uma pessoa com deficiência faz algo que qualquer outra pessoa sem deficiência faria, e as pessoas sem deficiência, sem saber o contexto daquela história, utilizam para ajudar a si mesmas a continuarem suas próprias vidinhas. Pessoas com deficiência, em geral, não são vistas como pessoas reais, como um profissional qualquer, sejam professores, médicos, advogados. São vistas como objetos, são objetificadas para atender às necessidades das pessoas sem deficiência.

Mas eu sei que elas não fazem por mal. Elas não querem ser psicofóbicas. Quase ninguém quer reproduzir um preconceito. É cultural, está naturalizado em nós e não percebemos isso. Eu não percebia minha psicofobia, até ter um filho autista…

Existem muitos mitos a respeito do autismo que foram repetidos tão exaustivamente que, para muitos, é a verdade sobre a condição. “Autistas não interagem”. “Autistas não mentem”. “Autistas não sentem empatia e não sabem se colocar no lugar da outra pessoa”. “Autistas não têm imaginação e não sabem brincar de “faz de conta”‘.

Existem ainda as meias verdades, que não se aplicam a todos os autistas nem da mesma forma, nem se aplicam só aos autistas: autistas não suportam barulhos, autistas detestam abraços e toques, autistas não olham nos olhos, autistas têm epilepsia, etc.

Bem, meu filho é autista. E olha nos meus olhos. E adora ir ao shopping, assim como se sente muito bem nas manifestações de rua com as quais já foi comigo. Sim, ele pode ficar super estimulado e, de vez em quando, se incomodar com o excesso de agito, mas nada fora do comum para uma criança de quase cinco anos. Meu filho não tem epilepsia nem outra condição para além do autismo e de ser uma criança, a maior parte do tempo, adorável. <3

leoneelcio

Descrição da imagem: Foto do meu filho, deitado em cima do Élcio, um amigo nosso, com quem ele está se balança em uma rede colorida, na casa de outra amiga em comum. 

Fora do contexto, uma foto como essa pode ser vista como “pornô de inspiração”. Afinal, ele é autista, e autistas não interagem, correto? Não, não está correto. Autistas podem ter um pouco ou mesmo muita dificuldade na interação social, dificuldade essa causada pelo ambiente que o cerca, não por causa dele, não porque ele não quer interagir.

Meu filho não tem hipersensibilidade sensorial como a maioria dos autistas são retratados na mídia, ele tem hipossensibilidade, e ele PRECISA de muito toque, de muito abraço, de muito aconchego.

Além disso, ele está crescendo. A terapia de integração sensorial foi fantástica para ajudar seu cérebro a receber, processar e responder aos estímulos sensoriais, mas o desenvolvimento dele também conta. Até dois meses atrás ele comia cerca de 10 tipos de alimentos e hoje, em que pese ainda dar preferência a esses 10 alimentos, vem provando novos sabores quase que todos os dias.

Uma criança com transtorno do processamento sensorial que hoje não suporta um toque, um abraço, poderá suportar amanhã, na adolescência ou na maturidade, com ou sem terapia. Claro que a terapia, a intervenção precoce ajuda muito e ninguém deveria abrir mão dela, mas o amadurecimento natural do cérebro também pode fazer parte dessas mudanças!

O autista é um ser humano, dotado de qualidades e que enfrenta sim desafios, alguns maiores do que os seus, mas que não o torna um ser inferior, a ser visto com compaixão.

Modelo Social de Deficiência: Por uma sociedade melhor

Quando percebemos as crianças e as pessoas com deficiência como inferiores, pobre-coitadas, estamos nos atendo ao antigo modelo caritativo de deficiência, que vê o individuo com deficiência como um problema e que, por isso, precisa de serviços especiais, cuidados especiais, afinal, é uma criança/pessoa “especial” (no sentido de especial = problema mesmo!)

Quando vemos uma criança ou pessoa com deficiência como problema, nós queremos consertá-la, ou seja, torná-la o mais normal possível. Assim que se populariza, a cada dia, “tratamentos” para autismo degradantes e desumanos, que podem até levar a pessoa à morte, ou a sérios problemas de auto estima, mas que são considerados justos porque, afinal, aquela pessoa não é tão pessoa assim, não é mesmo?

Eu milito pelo modelo social de deficiência, que afirma que a deficiência está no ambiente e não na pessoa. São as barreiras atitudinais e ambientais que impedem outras de terem acesso à direitos. Nesse modelo, a busca é por adaptar o mundo para que essa pessoa seja empoderada, e não o contrário. Não existem pessoas certas ou erradas, do ponto de vista físico, intelectual ou neuronal. Existem pessoas que precisam de mais ou menos suporte, como uma cadeira de rodas para se locomover, um óculos para enxergar de longe, um auxiliar para realizar certas atividades. O problema é a nossa sociedade que exclui, que segrega.

Quando eu posto algum fato do dia a dia do meu filho que mostra seu desenvolvimento, como a atual mudança no padrão alimentar ou a melhoria na sua coordenação motora fina, sou apenas mais uma mãe babona. Não quero que ele seja visto como uma inspiração para você, nem que você me diga o quão guerreira eu sou, quando, em outras ocasiões, desabafo as dificuldades da maternidade real, dificuldades essas muito mais ligadas ao machismo nosso de cada dia e a falta de uma rede de apoio do que com a maternidade em si.

Eu também quero que você entenda que o autismo não é esse bicho de sete cabeças que contam por aí. Meu filho tem um cérebro que funciona diferente de um filho não autista, “neurotípico”, mas ele não veio de Marte! (se bem que muitos autistas se sentem assim, não porque são tão diferentes, mas porque a sociedade os faz sentir assim.) Cada autista é um e isso não é um problema, assim como cada “neurotípico” é um e tudo bem.

No fim das contas, somos todos seres humanos em uma experiência terrena. Eu não sou Adriana, eu estou Adriana. Estou evoluindo e, se ontem já fui tão psicofóbica quanto a maioria das pessoas, a convivência com meu filho, os estudos e o ativismo me abriu os olhos e a mente para um novo universo. Nesse universo, ser diferente é o normal.

Então, fica a dica: da próxima vez que for sugerir a um pai, uma mãe ou mesmo a uma pessoa com deficiência que assista algo relacionado àquela condição, reflita: este texto/filme traz alguma informação que realmente irá agregar algo, ou eu só achei “inspirador”? O texto/filme me despertou quais sentimentos: interesse, surpresa, ou “emoção”, “pena”, “ainda bem que não sou eu nessa situação?” (Seja honesta/o com você, hein?).

Analisar o que você sente ao ler/ver o que quer sugerir pode ajudar a perceber sua própria psicofobia/capacitismo e se tornar, amanhã, mais um(a) militante por um mundo melhor. Um mundo onde todo preconceito será detectado de forma óbvia por todas as pessoas, sem que a gente precise desenhar sobre.

    • Ezio
    • 17 de junho de 2017
    Responder

    ❤️

  1. Oi, Adriana!
    Eu achei muito bacana o texto! É importante esfregarmos umas verdades na cara de alguns supostos nossos defensores (que na verdade, estão apenas se autopromovendo), para parar com essa palhaçada de autismo-é-tragédia.

    • Responder

      Saudade de você, William!

      Saí do facebook porque não dava conta mais do ambiente tóxico de lá, mas algumas pessoas deixaram saudade. Você é uma delas.

      Vou tentar postar mais aqui para a gente papear! =)

      Abraços!

Reply to William de Jesus Silva (O Desenhista das Ruas). cancel