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Por que ele é assim, mamãe?

24 de novembro de 2016 , In: Aprendendo com o autismo , With: No Comments
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Quando uma criança se depara com o diferente, é natural a curiosidade ou mesmo o receio. Aí surgem as perguntas, nem sempre fáceis de responder, até porque muitos de nós não convivemos com a diversidade no decorrer da nossa vida. Estamos ainda engatinhando na inclusão e não fomos educados/preparados para vivenciá-la.

Eu não lembro de ter tido colegas com deficiência na escola. No trabalho também foram poucos e é no dia a dia, na convivência, que superamos nossa dificuldade em lidar com o diferente. Então que, se eu não tivesse um filho autista, provavelmente teria dificuldades em responder certas questões que qualquer criança faria ao se deparar com uma nova situação.

Uma amiga me contou sobre as perguntas que sua filha fez em relação a um colega de sala que é autista (e não utiliza a linguagem falada) e procuro aqui responder as mesmas, de uma forma bem generalizada, mas sempre com o mesmo objetivo: ensinar à criança que somos todos indivíduos únicos e, que nessa diversidade, podemos encontrar a beleza da vida.

Antes de ir para as perguntas, quatro questões:

A criança aprenderá pelo exemplo: Se você quer que sua filha ou filho aprenda a respeitar a diversidade, deverá dar o exemplo. Você se relaciona com pessoas diferentes de você? Como você trata o coleguinha dela/dele quando se encontram? Já pensou em convidá-lo para ir na sua casa ou para um passeio com sua/seu filha/o? Pense como você pode incluir a diversidade no seu dia a dia.

Confie na capacidade de entendimento da criança: Adultos costumam subestimar a inteligência das crianças e evitam dar explicações sobre temas diversos, mas acabam se surpreendendo com o raciocínio infantil. Apresente livros e desenhos que tratem da diversidade (texto para outro post, mas de cara posso indicar o filme Procurando Dory e o livro Pelos Olhos de Bernardo), a partir deles você poderá estabelecer conversas bem ricas com seu filho/ou filha. E, diante de uma pergunta muito cabulosa, seja sincera, diga que não sabe responder, mas que vai procurar informações – e venha cá, me peça! Mães de criança com deficiência estão sempre prontas a ajudar, o que mais queremos é que nossos filhos e filhas sejam aceitos pelas outras crianças.

Todos temos algo em comum. É natural ficarmos curiosos com as diferenças, mas, para criarmos laços afetivos, é importante reconhecer o que temos em comum. Pode ser um filme favorito, uma brincadeira, um alimento. Descobrindo o semelhante, desenvolvemos maior tolerância com o que nos é estranho. Sempre procure incentivar seu filho ou filha a ver o que ele/ela tem em comum com as outras pessoas e crianças que ela encontra pelo caminho.

A inclusão depende de você (e do seu filho). Em 2008, o Brasil ratificou a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, adotada pela ONU, bem como seu Protocolo Facultativo. De acordo com a Convenção, “pessoas com deficiência* são aquelas que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdades de condições com as demais pessoas.” Esse conceito foi adotado na Lei Brasileira de Inclusão, que o traz em seu artigo 2. Isso significa que a deficiência, na verdade, está no ambiente. São as barreiras – físicas ou de atitude – que impedem as pessoas de participarem efetivamente da sociedade. É então dever da sociedade derrubar essas barreiras.

*O termo Pessoa com Deficiência é legalmente aceito no país desde 2010. Não se usa “pessoa com necessidades especiais”, “portador de necessidades especiais,” “criança especial”, “pessoas portadoras de deficiência”.

Mas chegamos ao que interessa. As perguntas:

“Mãe, por que ele não fala comigo?”
Existem crianças autistas que não utilizam a linguagem falada, assim como crianças autistas que, em determinadas situações e/ou com pessoas desconhecidas, não entendem as convenções sociais e como deveriam se portar em um determinado contexto social. No primeiro caso, você pode responder que existem crianças que aprendem a falar mais tarde, outras preferem falar de uma maneira diferente (por exemplo, fazendo barulhos, pulando, batendo palmas ou até mordendo). Diga que ela pode tentar se comunicar com a criança observando o amigo, que isso pode também ser uma brincadeira legal. No segundo caso, também apele para a diferença. Mostre que ela talvez também não entenda a conversa que você, mãe, tem com outros adultos e isso acontece. Mas que, se ela quiser, poderá ensinar o amigo a estabelecer um diálogo. Ensine-a que dar o primeiro passo é importante!

“Por que ele brinca assim? Eu não gosto que ele derrube o meu monte de areia!”
Ou a casinha de blocos, ou que coloque o carrinho de cabeça pra baixo e fique brincando de rodar os pneus… crianças autistas brincam de uma forma muito peculiar, porque o cérebro delas trabalha de uma forma diferente. Você pode explicar que existem crianças que gostam de brincar de uma maneira diferente e, o que para ela é algo ruim, para a outra criança é bom. Nessas horas, vale ensinar o espírito de colaboração: ensine a ela que tanto ela pode se divertir brincando da maneira diferente daquela criança quanto pode tentar ensinar àquela criança como ela gostaria de brincar. E que, mesmo ensinando uma, duas, três vezes, a outra criança pode insistir em continuar brincando do jeito dela, faz parte, afinal, ela está se divertindo, mas com paciência ela aprenderá! Procurar também brincadeiras que ambas gostam – pular em poças de lama, brincar de pega -pega – pode distrair das brincadeiras que ambos ainda não conseguem fazer juntos. A sinceridade também é importante, ela deve mostrar ao colega que não gosta daquela brincadeira.

Por que ele usa fralda? Não é bebê mais!
Existem adultos que usam fraldas. E bebês ainda pequenos que não usam. Cada um aprende em um ritmo diferente e se ela já não usa fraldas não significa que colegas da mesma idade não precisem usar. (Autistas tem atraso global do desenvolvimento e em algumas questões podem demorar a atingir o desenvolvimento esperado para aquela idade, em outras podem estar mais avançados. Por isso é importante focar no indivíduo que está ali, não na condição autista).

Por que ele grita quando está tocando uma música alta?
Ainda pontuando a diferença, explique que algumas crianças têm uma super audição e conseguem escutar até o barulhinho de uma formiga andando!  Essas crianças ficam muito agitadas quando a música está alta, porque escutam muito melhor do que nós e isso pode doer o ouvido. Quando isso acontecer, peça que abaixem a música ou pergunte se a criança quer brincar longe dali. Já outras crianças têm uma audição fraquinha e só escutam quando o som está muito alto – e ficam muito felizes em escutar a música! De qualquer forma, ensine à criança a respeitar a maneira da outra pessoa se expressar. Será uma lição valiosa para toda a vida.

“Meu coleguinha não gosta de abraços e beijos. Por quê?”
Lembra da super audição? Algumas crianças têm um super poder e podem sentir um abraço como se fosse um grande urso apertando-a! Por isso não gostam de abraços. Outras, ao contrário, precisam de um abraço mais apertado, porque não o sentem direito. Pergunte para ele o que ele gosta, caso ele consiga se expressar verbalmente. Observe se ele gosta de tocar nas pessoas, se não gostar, respeite! Você gostaria que um urso apertasse você até sufocar? É como ele pode se sentir.

“Meu colega deixa as outras crianças pegarem seus brinquedos. Por que ele faz isso?”

Algumas crianças não se importam que peguem seus brinquedos. Outras não sabem como impedir isso de acontecer. Você pode ajudar, diga aos amigos que não peguem seus brinquedos. Chame-os para brincarem todos juntos, isso é mais divertido! Em todo caso, é importante que a criança entenda que cada uma reage de uma forma e, o que parece ser muito ruim para ela, pode não ser para a outra.

“Quando ele crescer ele vai falar? Ele vai ainda usar fraldas? Como vai ser?”
Essa é uma pergunta bem difícil. Não existe uma resposta, pois cada criança desenvolve do seu jeito. Quando ele crescer, ele será um adulto. Que poderá fazer algumas coisas que adultos costumam fazer e outras, não. Adultos não sabem tudo nem fazem tudo, cada um tem suas habilidades e suas dificuldades. Pergunte se ela sabe quais as próprias habilidades e no que ela tem dificuldade hoje. Peça para que ela descubra se o amigo tem alguma habilidade especial – todos temos! Pode ser em organizar objetos, em contar números, em cantar, dançar… Toda criança nasce com um dom. E, mesmo que ela não saiba falar, ou brincar, ou cuidar dos próprios brinquedos, ainda assim ela tem um dom, uma habilidade que talvez você não tenha. Dê exemplos da vida dela, das amigas, das tias, dos pais. O que cada um tem de especial? E o que cada um tem de dificuldade? Ela perceberá o universo de diversidade que já existe ao seu redor e ficará mais tranquila com essa descoberta.

Várias novas perguntas virão e você poderá ficar sem saber o que responder. Nestas horas, eu uso uma tática que tem funcionado: eu questiono de volta. E me surpreendo muitas vezes com a resposta! Crianças, como eu disse no início, têm uma sabedoria inerente. Permita-as expressar essa sabedoria.

O mundo será um pouco melhor quando percebermos que a inclusão é um benefício para a toda a sociedade. Até lá, comece por você, por seu filho, por sua vizinhança. Já é um passo e tanto!

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