bullying

Os perigos que existem na escola

20 de setembro de 2017 , In: Aprendendo com o autismo, Comunicando, Direitos , With: No Comments
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Descrição: Foto de uma criança de cabelos castanhos claros, com as mãos tampando o rosto como se chorasse e, ao fundo, dois meninos rindo e apontando para ele, remetendo a imagem à uma cena de bullying. 

Dizem que a escola é muito importante, não somente pela questão da educação, mas pela socialização.

Será mesmo?

Uma das minhas maiores preocupações hoje com o Leon é que ele sofra agressões (físicas, psicológicas, sexuais) no ambiente escolar.

E não estou falando apenas de agressões vindo de colegas, mas também de professores e outros profissionais do local.

Leon, assim como a maioria dos autistas da sua idade, não sabe relatar o que acontece com ele. Ele ainda mal sabe responder o que acontece no dia a dia da escola, no máximo sai um “brinquei um pouco” quando pergunto o que ele fez lá.

Eu vivo recebendo relatos de crianças autistas que apanharam ou sofreram bullying*- tanto por parte dos colegas quanto dos próprios professores!

Por isso que, ao receber estes relatos abaixo de uma querida amiga, sobre o que o filho dela sofreu antes e depois do diagnóstico (ele só foi diagnosticado aos oito anos) resolvi compartilhar com vocês, para entenderem a gravidade do que acontece com nossas crianças e, muitas vezes, não ficamos sabendo:

“Meu filho, no primeiro ano do ensino fundamental, vinha de van da escola para casa. Ele sentava bem na frente. Todos os dias meninos entravam na van e, um por um, davam um tapa em sua cabeça e o chamavam de algo (bicha, gay, boiola, burro, cada um tinha uma coisa para dizer) com a anuência da motorista da van, que se “divertia” com a violência. Durante os 16 quilômetros do trajeto, as humilhações continuavam e meu filho nunca contou nada para mim. Só fui descobrir quando mudou a motorista e o novo, descobrindo o que acontecia, contou horrorizado para mim e passou a colocá-lo sentado ao lado dele durante todo o trajeto.

Ele tem verdadeiro pavor de banana. Seu cérebro entende a banana como algo podre, e ele mal consegue cumprimentar alguém que tenha comido uma banana. Por conta disso ele sofreu horrores na escola, desde colegas que o trancaram no banheiro e jogaram cascas de banana lá dentro até um professor que fazia questão de comer banana antes da aula e depois obrigá-lo a pegar na mão dele ou no giz só para mostrar “quem manda”.

Meu filho não conseguia frequentar o recreio, pelo barulho e agitação e, por isso, se trancava no banheiro. Uma vez, ao sair, dois colegas, um de cada lado do banheiro, cuspiram nele e saíram rindo.

Esse mesmo professor o humilhava constantemente na sala de aula, chamava-o de malandro, folgado, preguiçoso, entre outros adjetivos terríveis. Dizia que a letra dele era horrível, que ele queria ser melhor que os outros, fazendo o menino tomar pavor da matéria (matemática) por muitos anos.

Nesse caso, ele deu uma pista sobre o que tinha acontecido. Após três dias sem dormir direito, sem comer, sem falar, só chorando, ele desabafou no retorno da escola, dizendo: “Por que ele me chamou daquilo? Eu não sou nada daquilo! Por que ele faz isso comigo? Por que ele falou comigo daquele jeito? Ele não tinha que gritar, por que ele gritou comigo?” Eu, então, voltei na escola, e a monitora confirmou o que tinha acontecido, contando mais detalhes.

Outro caso: um dia ele ouviu a professora de inclusão falando mal dele para a monitora, mas dessa vez ele me contou, só que eu não pude fazer nada, pois ele se sentiu mal por ter ouvido a conversa alheia e isso era errado. “

Com o tempo, eles aprendem a contar. Para acelerar o processo, é importante trabalhar a questão com a psicoterapia, a fim de aprimorar a capacidade de fazer relatos, além de tentar plantar um “anjo da guarda” na escola, um colega ou amigo/a que possa ficar de olho e contar para a própria mãe fatos que estejam acontecendo.

Nossos filhos estão correndo riscos – e precisamos ficar alertas! De acordo com o terceiro volume do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) 2015, um a cada dez estudantes é vítima de bullying nas escolas.

O relatório também mostra que professores têm papel importante no bem-estar dos estudantes. Estudantes que recebem apoio e suporte dos professores em sala de aula são 1,9 vezes mais propensos a sentir que pertencem à escola do que aqueles que não têm esse apoio.

Portanto, o bullying feito pelos próprios professores (e pouco discutido na sociedade) tem um peso ainda maior do que o praticado pelos próprios colegas.

No caso de crianças com deficiência, esse índice é ainda maior. Segundo a Sociedade Autista Nacional do Reino Unido (The National Autistic Society UK), mais de 40% das crianças e jovens autistas sofrem bullying, principalmente nas escolas. Isso tem um impacto devastador para o autista e sua família. As consequências para as crianças autistas são, entre outros, baixa autoestima, baixa produtividade escolar e extrema ansiedade. Alguns acabam por sair da escola definitivamente.

Como prevenir o bullying?

Não é tarefa fácil, principalmente se professores estiverem envolvidos. É preciso conscientizar toda a escola – da diretoria aos próprios alunos, envolvendo também os pais das crianças neurotípicas – sobre o tema, assim como no entendimento do autismo e outras deficiências.

Vanessa Bencz, jornalista de Santa Catarina, diagnosticada na adolescência com TDAH, está fazendo um trabalho incrível em escolas e universidades falando sobre bullying e empatia. Você pode ler mais a respeito dela aqui (não percam o vídeo no final da entrevista!)

Neste texto você encontrará algumas medidas adotadas em escolas do Reino Unido e em outros países europeus. Você também poderá optar pela desescolarização, que vem crescendo em número de adeptos a cada ano. Mas esse é um assunto para outro post!

Bullying* Termo em inglês que significa algo como intimidar, agredir. Mais do que “brincadeiras de mau gosto”, o bullying se caracteriza por situações agressivas, sejam agressões verbais ou físicas, feitas de maneira repetitiva por um ou mais alunos/colegas e que podem causar traumas profundos.

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