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O que é autismo?

2 de abril de 2018 , In: Aprendendo com o autismo , With: No Comments
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Texto do grupo Autismo em Evidências*, em parceria com a Dra. Raquel Guimarães Del Monde

Nosso sistema nervoso é uma estrutura incrivelmente complexa que nos conecta ao universo e aos outros seres. É por ele que percebemos tudo que nos rodeia, que assimilamos informações de todos os tipos, que as armazenamos na forma de memórias. Por meio dos seus circuitos, somos capazes de fazer associações entre essas informações, integrando-as entre si, encontrando padrões que nos permitem fazer inferências sobre nosso meio e nossos semelhantes, formular hipóteses, fazer planos, transformar planos em ações.

Nas últimas décadas, a neurociência tem feito contribuições muito importantes para a compreensão desses circuitos. Sabemos, por exemplo, que cada área do cérebro exerce funções bem específicas. Algumas áreas percebem formas de energia que são traduzidas para sons, imagens, sensações variadas que ganham significados de acordo com nossas vivências; outras áreas integram essas sensações gerando informações mais e mais complexas; outras áreas são responsáveis pelos nossos movimentos, pela linguagem, pelas emoções, pela atenção e assim por diante. No entanto, por mais específicas que sejam suas funções, as diversas regiões do cérebro não agem isoladamente; ao contrário, elas interagem o tempo todo, enviando e recebendo informações num fluxo contínuo.

Toda essa dinâmica exige algum tipo de controle. É como o centro de uma cidade grande: se não houver semáforos para controlar o tráfego de veículos por suas avenidas movimentadas, a situação fica caótica. Da mesma maneira, para evitar uma sobrecarga do sistema, o cérebro precisa selecionar os estímulos mais importantes para alcançar um determinado objetivo, priorizando determinada função, enquanto inibe outros estímulos, que são irrelevantes naquele momento. Isso é necessário para que funcione de forma tranquila.

Em algumas condições neurológicas, a ativação ou a inibição das diversas áreas cerebrais, bem como o fluxo de informações entre elas, não ocorrem conforme o esperado. Algumas áreas podem estar exageradamente ativas, outras hipoativas, e/ou a comunicação entre elas pode seguir padrões muito diferentes dos usuais. É o que acontece no autismo.

De origem predominantemente genética, o autismo se caracteriza por alterações na configuração dos circuitos neuronais (com suas conexões e sistemas de neurotransmissão), afetando a maneira com que aquele cérebro recebe, assimila e elabora as informações, tanto do ambiente físico, como do ambiente social.

São muitos os tipos de alterações possíveis. Algumas acontecem já nas fases mais iniciais da formação do sistema nervoso, como na migração neuronal, que é o período em que as células nervosas que constituem a unidade funcional do sistema nervoso se movem para ocupar seu devido lugar. Outras em fases mais tardias, como as que alteram a poda neuronal, que é um processo natural que ocorre em todas as crianças por volta dos 18 aos 30 meses de idade, “desligando” as conexões neuronais não utilizadas para reforçar as conexões mais relevantes. Cada uma delas pode afetar o processamento de informações do cérebro de formas variáveis, levando a manifestações bem heterogêneas.

As próprias sensações (tais como percepção de luz, som, odores, sabores, entre outras) podem chegar numa intensidade muito maior ou muito menor, aturdindo o cérebro além do limite do tolerável ou deixando uma lacuna onde deveria haver uma informação necessária para fundamentar uma ação. Qualquer um dos extremos pode limitar o desenvolvimento de outras funções e levar a uma situação de esgotamento.

Podem haver alterações no planejamento motor (ocasionando dificuldades na fala ou na coordenação motora), na regulação do sono, no reconhecimento de aspectos da interação social, na atenção e memória, na interpretação de informações verbais ou visuais, na regulação emocional e em outras funções.

Porém, para haver caracterização como autismo, há que se observar um impacto nos domínios da comunicação, da socialização e de comportamentos específicos (interesses, pensamentos e comportamentos restritos e repetitivos, além de variações no processamento sensorial.

Portanto:

Em uma definição simples e ao mesmo tempo abrangente, o autismo constitui um transtorno do neurodesenvolvimento que afeta, em graus variáveis, a comunicação, a socialização e o processamento neurológico de informações cognitivas e sensoriais.

Condições coexistentes podem ampliar ou mesmo mascarar os déficits relacionados ao autismo, como a epilepsia, o transtorno do déficit de atenção, a deficiência intelectual, as altas habilidades, entre outros. É importante – tanto para o profissional que está lidando com a criança ou adulto autista quanto para seus responsáveis – saber diferenciar o que é do autismo e o que não é.

Alguns personagens conhecidos do grande público tornaram-se arquétipos de autistas na nossa cultura, como Rain Man. Eles tiveram sua importância num momento em que ninguém havia ouvido falar em autismo, mas sua permanência no imaginário coletivo, tantas décadas depois, só perpetua a relutância da sociedade em legitimar a imensa variação existente no espectro.

Atualmente, temos alguns novos personagens nas telas trazendo um pouco mais dessa variedade, como é o caso da série Atypical (da Netflix), do filme Adam e até de uma personagem em uma novela brasileira, a Benê, da Malhação, série voltada para adolescentes. A personagem desafia também um dos mitos do autismo, o qual apregoava que apenas meninos possuiriam essa condição. Hoje já se sabe que existe um grande número de sub-diagnósticos de meninas e mulheres.

A multiplicidade das formas em que o autismo se manifesta é talvez o aspecto mais impressionante desta condição. A sensação de alguém que busca se aprofundar no assunto assemelha-se à experiência de observar as imagens formadas num caleidoscópio. O caleidoscópio é um aparelho óptico, um cilindro revestido de espelhos inclinados e que contém pedacinhos de vidro colorido em seu interior. Ao movimentar o tubo, o reflexo dos vidros nos espelhos cria uma mistura infinita de imagens de formas e padrões sempre diferentes, alegorias únicas. Assim como acontece no autismo.

Prender-se a uma única imagem é como limitar-se à observação de uma única fotografia estática. E por essa razão, vivências estritamente pessoais – sejam dos próprios autistas, de suas famílias ou de profissionais de saúde e educação que trabalham com eles – não podem ser os únicos parâmetros para assimilar a pluralidade desta condição.

Por isso é tão importante os estudos e as evidências científicas a respeito do autismo. Infelizmente, devido exatamente a essa ampla variação, existem diversos mitos (já refutados pelas evidências científicas) que acabam por dificultar tanto o diagnóstico quanto a definição de terapias para o suporte das pessoas autistas.

Mas, então, como saber se uma pessoa é autista ou não?

Sinais da condição já podem ser percebidos desde os primeiros anos de vida, sendo mais evidenciados na famosa fase da “adolescência dos bebês”, ou seja, entre os 18 e 30 meses. Nessa fase, além da poda neuronal “diferente”, há um salto do desenvolvimento do cortex pré-frontal, que tem uma grande influência no comportamento social, assim como do sistema límbico, conhecido como o nosso cérebro emocional, mas que vai muito além de simplesmente regular as emoções, pois hoje se sabe que ele também é vital para questões como o aprendizado, a memória e a motivação.

Exatamente por isso é comum ouvirmos pais dizerem que o autismo do filho “surgiu” após os 18 meses, dando margens a teorias absurdas sobre sua origem. Não é mágica nem fatores externos, mas apenas o desenvolvimento natural do nosso cérebro que evidencia as diferenças existentes entre cérebros autistas e não autistas.

Podemos citar algumas características comuns em crianças e pessoas autistas, sempre lembrando que essas características variam de intensidade e mesmo podem não estar presentes em todas as crianças autistas, assim como podem se apresentar em crianças neurotípicas:

Fala disfuncional ou inexistente: O autista pode começar a falar na época certa ou mesmo nunca chegar a utilizar a linguagem falada de maneira funcional, mas sempre apresentará algum nível de dificuldade, seja com sinais de ecolalia (repetição de letras, palavras ou frases), linguagem literal (dificuldades em entender metáforas, mensagens subliminares, ironias, palavras e frases conotativas);

Hiper ou hipossensibilidade nos sentidos: A imagem clássica do autista tapando os ouvidos não abarca o universo autista. Sim, existem muitos autistas com hipersensibilidade auditiva, mas existem também os hipossensíveis auditivos, que parecem não escutar determinados sons. As respostas a esses estímulos podem variar de ativo para passivo e, além disso, nenhuma criança é totalmente hipersensível ou totalmente hipossensível. Um processamento sensorial diferente do padrão causa alterações na alimentação, no brincar, na interação social, etc.

Rigidez mental: autistas têm dificuldade com a mudança da rotina. Com tantos estímulos sensoriais ambientais, a rotina acalma, traz certa estabilidade para o mundo caótico e a adoção de rituais e hábitos rígidos auxilia no funcionamento do cérebro e na diminuição da ansiedade.

Disfunção executiva: a função executiva envolve diversas habilidades cognitivas, desde a capacidade de iniciar e terminar atividades até a de traçar estratégias, elaborar e mudar planejamentos de curto, médio e longo prazo. Estudos demonstraram que autistas podem apresentar dificuldades na função executiva, em graus variados, causando dificuldades práticas no dia a dia como déficits no controle emocional, no planejamento, alto nível de distração, baixa capacidade de realizar mais de uma ou diversas tarefas ao mesmo tempo, definir prioridades, entre outros.

Foco nos detalhes e não no todo: o pensamento autista, em geral, se prende aos detalhes. Temple Grandin exemplifica bem essa particularidade no seu trato com animais e como essa habilidade a permitiu enxergar questões que os neurotípicos não observaram. O foco nos detalhes é típico de uma mente mais concreta.

Hiperfoco em determinados assuntos: todos nós podemos desenvolver interesses especiais no decorrer da vida. No caso do autismo, isso se torna mais evidente, mas não significa que seja uma característica exclusiva da condição. Então por que é importante entender o hiperfoco do autista? É por meio dele que a criança conseguirá adquirir mais facilmente outros conhecimentos e habilidades.

Apresentação de stims**: autistas, em geral, utilizam movimentos autorregulatórios repetidos para se auto-estimularem, ou simplesmente comunicarem sensações de prazer, cansaço ou mesmo sobrecarga sensorial. Por meio dos stims, autistas conseguem organizar a própria mente.

Alterações no sono: um cérebro extremamente ativo como dos autistas, com excesso de sinapses geralmente têm dificuldade em “desligar”.

Outras características que foram observadas em estudos sobre o tema não representam todos os autistas, pois irão depender de diversos fatores conjugados. Assim, hoje já se sabe que o “não olhar nos olhos”, “evitar contato físico” ou mesmo “preferir o isolamento” não podem ser generalizados, pois não são padrões.

Repetimos: Prender-se a uma única imagem é como limitar-se à observação de uma única fotografia estática. O indivíduo autista é isso, um indivíduo, com todas as suas particularidades, potencialidades e desafios.

* Autismo em Evidências: Adriana Torres, Adrianna Reis, Amanda Paschoal, Andrea Werner, Aline Veras, Fernanda Santana, Giselle Zambiazzi, Iara Assessú, Melania Amorim, Raquel Del Monde, Rita Louzeiro.

** Stims: A literatura médica utiliza o termo estereotipia, repudiado pela comunidade autista pelo seu tom negativo à uma característica importante para a identidade autista e suas manifestações.

Referências:
DMS 5, American Psychiatric Association, 2013
Executive functions in children with autism spectrum disorders. Brain and Cognition, ROBINSON, S.; GODDARD, L.; DRITSCHEL, B.; WISLEY, M.; HOWLIN, P., 2009.
Neurociência e educação – como o cérebro aprende, Ramon M. Cosenza e Leonor B. Guerra, 2011
O Cérebro Autista – Pensando Através do Espectro, Panek,Richard; Grandin,Temple, 2015.
Rutter’s Child and Adolescent Psychiatry, Michael Rutter, 2008

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