autismo

O preconceito nosso de cada dia

6 de outubro de 2016 , In: Aprendendo com o autismo, Comunicando , With: No Comments
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Hoje estava eu na aula de natação do filhote conversando com o pai de outra aluna quando surge um menino de mais ou menos sete anos, bate as mãos na água e sai pulando, feliz.

O pai da coleguinha não se contém, sussurra rindo e olhando para mim discretamente:

“Esse aí é doidinho”.

Não falei nada e ele, provavelmente lembrando que dois dias antes comentei sobre o autismo do meu filho, mudou de assunto rapidamente.

O menino foi e voltou, alegre, bateu novamente a mão na água e desconfiei de mais uma criança autista naquele local – a natação é realmente uma poderosa aliada para elas!

Ele era um lindo e nada tinha feito para despertar o deboche, mesmo que sem intenção, do meu interlocutor. Era apenas uma criança feliz. Vi nele Leon, daqui alguns anos, talvez ele seja assim, talvez não. Me doeu o comentário, mas não julguei o agressor, que também não parecia ser uma pessoa ruim, apenas estava expondo o que a maioria temos dentro de nós: os preconceitos naturalizados.

Fiquei pensando que há alguns anos eu não daria importância para o comentário preconceituoso dele. Foi assim com muitos dos preconceitos que estavam também naturalizados em mim.

A gente não nasce racista, homofóbico, classista, machista, capacitista, xenofóbico, psicofóbico, torna-se.  Mas esse tornar (assim como tornar-se mulher, olá, Simone) é tão naturalizado que não percebemos essa construção e acreditamos cegamente que fazem parte de nós.

Não é, somos e podemos ser melhores do que isso.

Hoje eu me policio em meus pensamentos, atitudes, palavras. Me policio inclusive nas canções que canto (sim, deixei de cantar muitas ao perceber os preconceitos escondidos ou mesmo cantados com todas as letras em músicas famosas).

Eu quero ser melhor do que fui. Eu quero voltar a ser o que era antes de me tornar parte do sistema social e político que nos estrutura. Essa é minha principal luta. Não é contra esse pai, não é contra você, que pensa diferente de mim.

Quem sabe, um dia, o que irá nos chamar a atenção será apenas o que faz mal para o próximo, como comentários preconceituosos.

Para isso, cabe a reflexão que me obrigo a fazer sempre: Qual o preconceito nosso de cada dia?

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