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Iara

12 de abril de 2017 , In: Aprendendo com o autismo , With: No Comments
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Alguns meses atrás uma amiga me apresentou virtualmente à Iara, uma linda jovem de trinta e um anos, mãe de João, de um ano e 4 meses.

Ela assistiu a um vídeo que compartilhei falando sobre stims e se assustou com a total identificação que teve com a jovem autista. Sua amiga, Daíse, passou meu contato e, desde então, mantemos uma troca muito rica de informações que a levaram a buscar seu diagnóstico. No momento ela se encontra em fase de avaliação por uma psicóloga, mas seu depoimento poderá ajudar muitas pessoas, desde mulheres adultas não diagnosticadas até pais que, por terem “uma filha estranha”, preferem não buscar o diagnóstico com medo de rotulá-las perante a sociedade.

Transcrevo abaixo seu texto, agradecendo a oportunidade de conhecer uma mulher tão incrível (e também à Giselle que, além de ter participado dessas conversas e auxiliado na troca de informações, revisou o texto, como vem fazendo na maioria dos posts deste blog):

“Meu nome é Iara. Fui diagnosticada com TDAH com 24 anos de idade. Sou distraída ao extremo, não entendo piadas, penso muito rápido e em muitas coisas ao mesmo tempo. Não termino as coisas que começo a fazer, a não ser que eu goste muito e, nesse caso, tenho dificuldade de deixar pela metade ou fazer mal feita, só consigo ser boa no que eu gosto. Esqueço que o mundo existe se estou fazendo algo que seja do meu interesse.

Não gosto de abraços. Meu marido diz que eu abraço como um velho porque prefiro encostar a cabeça no ombro da pessoa do que peito a peito. Também tenho uma amiga que me apelidou de “Velhinha” (ela é 20 anos mais velha do que eu). Os beijinhos me matam, então beijo com a bochecha e bem rápido. Gosto de enfiar os pés em montes de areia e as mãos no saco de feijão.

Quando criança, empilhava cartas de baralho até ter um castelo bem grande. Adorava blocos de madeira, quebra-cabeça, pega-vareta e Resta Um porque eu podia brincar só e do meu jeito.

Aprendi a ler sozinha. Minha mãe me ensinou até o “ca”, “co”, “cu” e eu descobri que eu poderia ligar o restante, então eu fazia ela ler um texto pra mim até que eu decorasse e depois ia juntando as sílabas, conforme o texto decorado, e descobria as palavras.

Comecei a ler com seis anos e com sete já tinha fluência na leitura. Eu gostava de rolar na grama e gostava de passar a ponta da fralda no rosto, me relaxava. Eu gostava também de rodar segurando o tronco do abacateiro do quintal da minha mãe, passava horas fazendo isso.

Minha memória é ruim, não lembro muito bem das pessoas, mas lembro das verrugas, cabelos no peito, cicatrizes, roupas, risadas e cheiros, lembro de detalhes dos lugares, mas nunca sei onde ficam, não lembro do todo.

Não entendo certas brincadeiras e nem ironias, a não ser que sejam explícitas. Recentemente, uma amiga muito gentil me fez um dicionário de emojis porque, sinceramente, não conseguia distinguir muito bem a diferença entre eles. Ainda preciso de um dicionário pros emojis do Face, são diferentes dos existentes no WhatsApp. Eu também não entendo metáforas muito bem, mas hoje tenho uma espécie de dicionário na cabeça, então passo bem com elas. Recentemente descobri o que é “fazer a Glória”*. Achei que era algum creme de leite ou algo parecido.

Eu fiz teste de audição há uns dois anos porque as pessoas falam comigo e se tiver um ruído bobo no fundo ou muita luz ou muito cheiro, não escuto, e tenho que pedir pra repetir várias vezes e isso é chato, então acabo fingindo que entendi. Eu nunca sei quando dizer “bom dia”, “com licença” ou “desculpa”. Tenho que me concentrar muito para responder o cumprimento certo porque, se não você me falar “bom dia”, eu posso me enganar e responder “pois não” ou “me desculpe”.

Quando eu era pequena, achava que o Papai do Céu era um homem velho, que toró era um bicho que caía do céu quando chovia forte e que todo dia tínhamos um sol diferente porque todo dia nascia um sol, menos nos dias de chuva…

Eu sou assim desde criança, eu mexia as mãos, me balançava e passava a mão pelas paredes, tapava os ouvidos se o som me desagradasse (me dei conta que ainda tapo os ouvidos pra dar descarga no banheiro), tapava o nariz também e já levei tapas e beliscões por isso. Já ouvi frases como: “senta direito, menina!”, “olhe pra mim quando eu falo com você”, “anda direito”, “tire a mão daí”, “pare com essas mãos”, “pede bênção pra fulano” (e isso chegava a ser doloroso), “cumprimente as pessoas direito”, “para com isso que é feio”, entre outras, e assim fui seguindo, pra fingir que penso dentro da caixinha.

Só que não funcionou muito bem, então virei a “esquisita”. Na infância foi tranquilo, minha escola era pequena e eu tinha a biblioteca e, além disso, eu morava numa cidade pequena e minha tia fazia parte da “elite” do lugar. Na adolescência, foi muito difícil. A escola era grande e eu virei só um número e eu me tornei A esquisita número UM do primeiro ano.

Eu dormia na sala, ocupava três cadeiras pra ninguém sentar ao meu lado e não tinha amigos na escola. Fiz aulas de teatro e consegui amigos “esquisitos”, outros homossexuais e todos compreensivos, o que me salvou da depressão.

O fato de eu não ter sido diagnosticada na infância me trouxe muitos prejuízos. Minhas tias diziam que eu não me esforçava para viver bem com as pessoas, uma delas chegou a dizer que eu era meio psicopata. Que eu era desorganizada por falta de força de vontade e eu tinha de parar com essas manias esquisitas quando estivesse no meio das outras pessoas. Eu tinha que vestir roupas de mocinha e o fato de elas me sufocarem e apertarem não importava, porque ser uma mocinha tem seus sacrifícios. Que eu era labuá porque eu não queria me depilar e, para minha prima, eu era lésbica porque eu não entendia a lógica de namorar com 14 anos de idade e gostava de ópera.

Essa prima levava suas colegas em minha casa para mostrar que tinha uma prima esquisita que gostava de música erudita. Estou sendo extensa, eu sei, mas disse tudo isso porque eu gostaria muito, muito mesmo que minha família tivesse vencido o preconceito e corrido atrás do diagnóstico. Hoje eu tenho 30 anos e só fui perceber o quanto ter me moldado pra passar por “normal” me fez mal. Eu tive uma psoríase grave devido ao estresse que a mudança de rotina causada pela chegada do meu filho me causou.

Metade do que eu falei pra vocês que eu faço ou fazia, nunca tinha dito ao médico, porque minha família me ensinou que eram o que aqui a gente chama de “cesto ruim”. Então, hoje, estou atrás do diagnóstico porque eu preciso entender todos os anos em que eu me senti incapaz, frustrada, menor e perceber que não, eu não sou isso, que na verdade eu tenho limitações que não me permitem pensar e agir de uma determinada forma, mas que podem me fazer pensar e agir de uma forma muito melhor e mais leve, e é o que tem me feito bem.

É isso! Desculpem-me se fui muito direta ou muito prolixa, não tenho muita noção de quando sou um ou outro.”

* “Fazer a Glória” é um meme famoso nas redes sociais que foi inspirado na participação da atriz Glória Pires no Oscar 2016 – Nota do blog

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