exaustao

Hoje

13 de setembro de 2016 , In: Aprendendo com o autismo , With: No Comments
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Exaustão: 

substantivo feminino
ato ou efeito de exaurir(-se); esgotamento.

Hoje eu estou exausta.

Eu me sinto exausta quase todos os dias faz alguns anos. Talvez eu não tenha realmente o dom da maternidade.

Talvez me falte vitamina B ou D (mentira, estou tomando suplemento vitamínico faz quase um ano por conta da minha tentativa de gravidez). Talvez eu esteja precisando mudar o foco, a direção.

Talvez é uma palavra que vem martelando na minha cabeça e aumentando meus já altos níveis de ansiedade. Sabem como é, sou controladora, gosto do sim ou não, preto e branco, certo e errado. Porque diabos inventaram o se, o talvez, o pero no mucho?

Eu já contei em algum post por aí, trabalho desde os 14 anos, já tive fases em que trabalhava 12 horas, estudava 4 e dormia 5. O restante eu estava ou no trânsito ou passeando com cachorros ou tentando fazer algum trabalho voluntário. Mas nunca na minha vida me senti tão exausta.

Não são 22h00 e tudo que quero é me deitar e acordar daqui um mês. Um ano, talvez.

Acendo um cigarro, faço café, preciso me concentrar para pelo menos escrever as atividades do dia seguinte, como sempre fiz. Sem isso fico perdida, já que acordo lerda e preciso ter algo para trazer foco, como uma linda lista de atividades prontinha para ser checada e executada.

O sempre não é todo dia mesmo, viu?

Eu sempre fui uma pessoa focada, centrada no que queria.

Desisti de tantas coisas nos últimos quatro anos que me dói olhar pra trás. Me dói ver o que não foi e o que não será. Elis. Mestrado. Trabalho. Amizades. Outra gravidez.

Preciso aprender a desapegar, falei isso com minha terapeuta. A deixar ir. Até hoje sonho com meu velho companheiro canino, que com quase 17 anos, sem andar direito, urinando e defecando em si mesmo, teve que ser eutanasiado. Foi em meu colo e estava tão frágil que não conseguiram sequer pegar a veia. E mesmo assim me culpei por muito tempo. Não soube deixar ir.

Planejo minha tatuagem da Elis. Quero marcá-la em meu corpo para que saia da minha mente.

Planejo meu retorno ao trabalho. Largar os trabalhos voluntários? Colocar Leon na escola o dia inteiro? Mas e as terapias, como fazer? Não dá. Tenho que arrumar tempo para trabalhar.

Mas estou exausta.

No livro “Lagarta Vira Pupa” Andrea diz que pesquisas recentes mostram que mães de crianças autistas possuem o mesmo nível de stress de um soldado em combate. Não sei se é verdade, eu sei que me sinto como se estivesse no puerpério há 4 anos.

Mães frescas entenderão. As mais velhas, na maioria, já esqueceram como era. A gente esquece, impressionante.

Muitas me dizem: “ah, criança é assim mesmo, meu filho/sobrinho/primo também é agitado assim.”

Eu me sinto tão exausta quanto escuto isso, sabe? É tão desqualificador quanto ser direta e me chamar de vitimista.

Talvez eu seja um pouco. Ou muito. Afinal, nem tudo é culpa do autismo. Autismo é só uma característica do meu filho que nem todos tem.

A minha exaustão pode ter a ver com o momento do país; com minhas escolhas e a falta delas; com meu passado e meu futuro nebuloso; com o estar acordando seis horas da manhã (coisa que mais odeio nesse mundo, eu não sou ninguém antes de 8 da matina) e indo dormir à 1 da madruga. Com o que não foi e eu não deixei ir.

Eu queria escrever sobre como esses dois últimos dias foram difíceis aqui. De como ele quebrou alguns brinquedos porque estava muito cansado e depois ficou ainda mais desorganizado por ter feito isso. Por ter me batido e eu, que tenho toda essa violência gritando em mim, tentando quebrar o ciclo, apenas consegui sentar no chão e chorar descontroladamente, enquanto ele ria de mim.

Eu queria contar de como ele fica magoado consigo mesmo após a crise passar. E eu o abraço. E nos consolamos juntos. E eu o entendo. E me culpo por permitir que ele saiba que me magoou. Que ele saiba que sua mãe é tão frágil quanto ele, ou mais, bem mais.

Tudo passa. Isso também vai passar. Mas, nesse momento, estou exausta.

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