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Elis

13 de maio de 2017 , In: Comunicando , With: No Comments
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Já se passaram dois anos desde a perda da minha gestação. Quando falo a respeito, algumas pessoas me perguntam: “você estava de quantas semanas?” e, ao ouvirem a resposta (sete semanas), algumas se arriscam a dizer: “ainda bem que estava cedo ainda, não é?”

Como explicar que eu engravidei da Elis meses antes de ver aquele segundo risco no teste de gravidez? Tudo começou quase um ano antes, quando a vontade de gerar novamente foi tomando conta de mim e eu fugindo, inventando mil justificativas racionais e virginianas para não me permitir cair nessa. Como essas pessoas poderiam imaginar que, antes de tomar a decisão, eu sonhei com ela várias noites, que conhecia seu sorriso, a cor dos seus cabelos, as bochechas rosadas, as covinhas nas mãozinhas delicadas?

Outras me perguntam: “Mas como você sabia que seria uma menina?” ou “Por que você a nomeou?”

Ahhhhh, se soubessem como meu coração de mãe já trazia aquela pequena menina dentro dele. Imaginação fértil, talvez? Só sei que eu a sentia tão presente que chegava a sentir seu cheiro.

O engraçado é que eu nunca sonhei com ela bebê, em todos os sonhos ela aparecia já com cerca de um ano e meio, dois anos. A idade que estaria agora. Outro dia, conversando com o filhote sobre bebês (ele adora, e vive me pedindo para ter um!) ele me disse: “Você sabia que a Elis não é bebê mais, mamain? Ela agora é uma criança e vem sempre brincar comigo. É minha amiga.”

Meu coração derreteu e, novamente, veio à minha mente a imagem dela, exatamente como nos sonhos antes da gravidez. Não, eu nunca mais sonhei com minha menina após a perda gestacional. Foi como se aquele sonho realmente tivesse acabado, em todos os sentidos.

Por quase um ano eu tentei engravidar novamente. Fiz todos os exames, nada acusava alterações, apesar da idade avançada. Eu ainda ovulava normalmente e, controlando meu ciclo pelo método sintotermal, fazendo testes de ovulação todo mês, dava para saber exatamente em que fase eu estava, e aprendi a conhecer cada sinal do meu corpo para as “tentativas”.

Eu engravidei do Leon meio sem querer, três meses após ter me juntado com o pai dele.

Eu engravidei da Elis três meses após ter tomado a decisão de ter outro filho.

Após muitas tentativas de engravidar pela terceira vez, eu desisti e refiz meus planos para a carreira, para a vida. Entendi que eu precisava deixar ir. A Elis. O sonho. Desde então, meu ciclo vem mudando, a fase folicular diminui mês a mês e sinto que, em breve, estarei na pré-menopausa.

Tudo acontece como tem que acontecer, dizem. Alguns religiosos dirão que eu a perdi porque ambas cometemos erros em outras vidas e precisávamos “pagar” por isso. Outros, mais acolhedores, que esse era o nosso tempo, o tempo necessário para estarmos juntas.

Amanhã é dia das mães. Eu receberei feliz dia das mães pela existência do Leon, não pela ausência da Elis. Ainda não sei bem lidar com isso, sabe?

Era cedo demais.

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*A imagem é da tatuagem que fiz em homenagem à Elis. Uma “árvore da vida” do lado direito da barriga, com suas raízes indo em direção “ao útero” e seus galhos e folhas em direção ao coração e ao chacra solar, onde foi desenhado um sol com uma estrela dentro. A estrela é a Elis. Algumas estrelas brilham em torno da árvore e o vento carrega folhas e estrelas para o chacra.

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