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O dia dos pais e as mães erradas

13 de agosto de 2016 , In: Direitos , With: No Comments
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Dia dos pais amanhã.

Posso contar nos dedos os bons pais que conheço e merecem uma homenagem nesse dia. Mesmo assim, não são eles que são julgados, rotulados, criminalizados diariamente. São as mães.

Existe um ideal de maternidade que foi criado pelo sistema patriarcal que nos amarra a uma figura angelical e sofredora. Tem até uma frase para isso: ser mãe é padecer no paraíso.

Ora, quem padece no paraíso são mártires ou seres alados. Aquelas figuras com asinhas, geralmente rosadas e loiras.

A mãe é essa, a heroína, a incansável, que ama incondicionalmente mesmo quando seu filho destrói sua casa, rasga suas roupas, vomita na sua comida. Mãe não estressa, não perde a pose, mãe não cansa.

E tudo, tudo que ela fizer poderá um dia se voltar contra ela, já que, convenhamos, de perfeição na terra só a natureza (que já fizemos questão de estragar).

Engravidou nova? Falta de juízo!

Engravidou velha? Sem juízo algum!

Pariu em casa? Louca!

Teve cesárea no hospital? Insensível!

Amamentou o filho? Tadinho do menino, por isso é fraquinho assim.

Deu leite de fórmula? Tadinho do menino, vai adoecer a toa.

Parou de trabalhar pra cuidar do filho? Folgada, preguiçosa, tanta mulher aí faz as duas coisas!

Não parou de trabalhar para cuidar do filho? Egoísta, só pensa em si mesma!

A lista de julgamentos é infindável. Você pode ser a mãe “perfeita” por muitos dias e dias mas, se em um único momento de esgotamento você grita com seu filho no restaurante após ele fazer mil estripulias você se tornará a pior mãe do mundo. E se ficar calada diante disso, também.

Não se engane, você um dia será julgada como a pior mãe do mundo. Porque a perfeição NÃO EXISTE. E a régua que usam para medir foi criada de acordo com as próprias convicções, não é única.

Os pais? Ah, homem é assim mesmo, dizem quando apontamos os milhares de homens que abandonam mulheres grávidas, ou bebês que nascem com deficiência, ou que simplesmente só aparecem em casa para dormir. E se surge um fora da curva, é cultuado, aplaudido, abençoado. Que homem! Que exemplo! Isso que é pai! É capaz de sair até no Jornal Nacional!

E na maioria dos casos estão fazendo só o mínimo do que nós, mães, fazemos todos os dias.

Hoje vi uma foto circulando na internet que me deu vergonha. Vergonha de ser humana e pertencer a espécie mais escrota do planeta, quiçá do universo. Era a foto de uma mãe no aeroporto com um bebê acomodado em um paninho no chão. Com um texto brega e meloso, a pessoa que postou cobrava da mãe as atitudes que ela esperava dela e pasme – colocando como se fosse o bebê falando. O bebê, que estava ali aparentemente bem satisfeito, já que não apresentava nenhum sinal de desconforto.

Uma foto. Um recorte. Uma saraivada de julgamentos, xingamentos, conclusões precipitadas. Uma mãe. Um bebê.
Ninguém a conhece. Ninguém sabe se de repente aquele bebê se sente melhor em uma superfície firme ao invés de ficar horas e horas no colo (sim, colo pode cansar, pasmem!). Não se sabe se a moça enfrentava algum problema sério e precisava mandar uma mensagem urgente para alguém. Não se sabe nada. Só se sabe que algum ser desse planeta concluiu que aquilo era um afronta PARA ELA e resolveu dividir isso com o mundo. E julgá-la. E condená-la sem qualquer chance de defesa. E muitos, muitos seguiram atrás, até gente “desconstruídona”.

É por isso que no dia dos pais eu não vou homenagear nenhum deles. Que me desculpem os amigos que são bons pais, que me desculpe meu próprio companheiro. Eu vou sentar e chorar por todas as mães que são humilhadas e subjugadas por essa sociedade hipócrita, machista, misógina e infeliz.

Eu vou pensar na minha mãe, que foi sim uma mãe incrível e que mesmo assim errou muito – porque assim como eu ela era humana, imperfeita. Não vou sequer pensar no meu pai ausente, já que a ausência foi tudo que ele me deixou de herança.

No dia dos pais eu quero abraçar essa moça do aeroporto. A outra que perdeu seu filho para a adoção porque teve depressão pós-parto e, pobre como era, não deu conta sozinha do fardo. A outra que esfaqueou a própria barriga para tirar de si a maternidade que ela não queria – e que devia ter o direito de não querer. Quero abraçar todas as mães erradas, tão erradas quanto eu mesma. Afinal, somos todas erradas.

Que um dia a liberdade chegue para nós. Ainda que tardia.

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#Pracegover: Fotos minhas nas três edições da Marcha das Vadias. A primeira foto mostra minha barriga de grávida escrito “Sou livre, sou vadia!” Foi em 2012. A segunda estou com Leon no sling (2013) e a terceira estou sem blusa, posando para a foto da Marcha de 2014 com Leon no colo, ambos olhando para a camêra.

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