inclusao

Buscando a inclusão

10 de maio de 2017 , In: Aprendendo com o autismo, Direitos , With: No Comments
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É muito comum ouvir de pessoas diversas, quando meu filho apresenta alguma desorganização sensorial, “que toda criança é assim”.

Existe uma tendência em negar a deficiência, a diferença, a diversidade em nós. Sentimos que precisamos mostrar que somos iguais, como se a igualdade fosse algo mais desejável e aceitável, confundindo a necessidade de igualdade de direitos com a homogeneidade impossível da humanidade.

Nesse sentido, a busca por uma igualdade inexistente é só capacitismo mesmo.

O que é capacitismo? É pensar que existe um corpo ideal, e que estar fora desse imaginário é algo ruim. Pessoas com deficiência visíveis são consideradas inferiores, menores, e a deficiência, algo a ser corrigido ou “superado”.

O capacitismo declarado pode surgir em forma de ofensas, considerações negativas, por meio da negação de direitos; já o capacitismo velado aparece no paternalismo, ao querer se colocar como protetor daquele indivíduo, ou pela negação da existência da deficiência.

“Seu filho nem parece autista”.

Essa frase, escutada muitas e muitas vezes, é dita, algumas vezes, com um tom de dúvida ao final. “Será que esse menino é autista mesmo?”, deve pensar o indivíduo, já formulando um textão mental de como a indústria farmacêutica está patologizando a infância e pais/ mães menos preparados do que ele (mesmo que ele nem seja pai ou mãe) caem nessa conversa.

Outras vezes ela é dita como um elogio. Como se parecer autista fosse algo menor, pior do que parecer “normal”.

Se seu filho tem deficiência visual, ou mobilidade reduzida, mescla-se sinais de compaixão com o evitar de olhos. Já em ambientes públicos, tais como escolas e locais de trabalho, atentam-se à letra da lei: fazem rampas para facilitar o acesso, elaboram livros acessíveis, discutem a tecnologia assistiva (conjunto de recursos e serviços que visam proporcionar à pessoa com deficiência independência, qualidade de vida e inclusão social, procurando assim eliminar as barreiras existentes no ambiente que impedem o pleno acesso aos direitos básicos), capacitam os demais para lidar com o diferente.

No caso do autismo e outras deficiências neuronais, quanto menos a pessoa entende da questão, mais ela busca ignorá-la. É paradoxal até. Como meu filho aparenta ser uma criança como qualquer outra, não há o que se falar em adaptar o ambiente ou discutir a diversidade para sua inclusão: ele, por si só, irá se adaptar.

Esse é o maior erro que podemos cometer quando falamos de inclusão. Não, meu filho não irá se adaptar a um ambiente que despreze sua condição. Ele tem uma condição diversa de neurodesenvolvimento, intitulada pela CID-10 de autismo infantil. Sua coordenação motora fina é de uma criança de 2 anos, enquanto que sua habilidade visoespacial é bem superior à minha, entre diversas outras questões que não tenho como relatar aqui.

Quando ele se desorganiza sensorialmente (seja por estar em um ambiente com excesso de estímulos, ou por estar cansado e não conseguir entender ainda o que significa a sensação do cansaço físico, ou por ter baixa tolerância à frustração) é comum ele estragar algum objeto, lançá-lo longe ou “atrapalhar” a brincadeira dos colegas. Ele não faz por mal, entenda. E não, ele não age assim pelos mesmos motivos que as outras crianças. Ignorar isso é tão ruim quanto acreditar que ele é simplesmente mal educado.

Podemos fazer uma analogia com os diversos tipos de violência existentes. Quando evidenciamos a violência contra a mulher não estamos ignorando que existam diversas outras violências, mas sim que essa violência, específica, tem também uma causa específica – o machismo. É difícil mensurar a causa de cada violência existente em nossa sociedade e, se sabemos de pelo menos uma, ufa! Temos aí um caminho para minimizá-la ou até eliminá-la um dia.

Quando sabemos a causa, podemos ir na raiz do problema. É excesso de estímulos? É cansaço? É frustração? Que tal retirá-lo do ambiente desfavorável, realizar uma atividade que relaxe os sentidos ou simplesmente permitir que ele se autorregule por meio de brinquedos sensoriais? No caso do meu filho, brinquedos que proporcionam o “input proprioceptivo” (cama-elástica, massageadores, macacão de lycra ou o túnel de lycra) ajudam bastante nessas horas, assim como cantar músicas ou contar histórias ritmadas.

Já em relação às crianças que convivem com ele, é importante que elas entendam a diferença. Dizer que “toda criança é assim” não vai ajudar, pelo contrário. No imaginário delas, quando elas têm atitudes semelhantes, o fazem por motivos diferentes do meu filho, portanto, o julgamento é inevitável. Mas, quando mostramos a elas que existem crianças que agem de uma forma semelhante, mas por motivos diferentes, isso amplia a capacidade de compreensão e a empatia, tão necessária no mundo.

Negar o autismo do meu filho não é inclusão. Negar a diferença não é inclusão. Compreender as condições diversas e adaptar nosso ambiente, seja por meio da derrubada das barreiras físicas, seja por meio da mudança de atitudes, é o caminho possível para a verdadeira inclusão.

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