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Autismo em tradução entrevista Fernanda Santana

17 de agosto de 2016 , In: Aprendendo com o autismo , With: No Comments
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O Autismo em tradução é um blog que você, que se interessa pelo autismo e pela neurodiversidade, PRECISA conhecer!

Me indicaram ele faz alguns meses, confesso que não lembro quem (e agradeço muito à pessoa!). É de uma brasileira, Alexia Klein, que mora nos Estados Unidos e tem um filho autista, o Asher.

Ela, como eu e muitas outras mães de autistas, mudou completamente seu caminho profissional, de farmacêutica se tornou tradutora (eu ainda estou na fase de descobrir o que farei já que suspendi meu trabalho desde o pré-diagnóstico, um ano atrás). Criou esse blog com o intuito de trazer para nós, em português, textos de bloggers autistas dos Estados Unidos.

Nesse post, especificamente, ela entrevista Fernanda Santana, autista brasileira membro da ABRAÇA (Associação Brasileira para Ação por Direitos das pessoas com autismo) que representou a entidade na nona edição da Conferência dos Estados Partes da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, de 14 a 16 de junho de 2016. Fernanda foi indicada pela ABRAÇA em uma parceria com Autistic Minority International para, através da Lumos e da Unicef, participar do painel “Ending Violence Against Children and Adolescents with Disabilities” (Fim da Violência Contra Crianças e Adolescentes com Deficiência) que aconteceu no dia 16 de junho, na sala 4 do Prédio das Nações Unidas em Nova Iorque.

Compartilho aqui trechos da entrevista feita por Alexia, o restante você poderá ler no blog da tradutora. Recomendo muito que salve em seus favoritos, têm posts incríveis lá!

A.K – Como o autismo se insere nas discussões sobre deficiência?

F.S – Hoje? No Brasil? Muito timidamente. Em muitos lugares, ainda estamos na fase do contar pras pessoas que autismo existe, que não é o mesmo que deficiência intelectual… estamos começando, devagar, a conquistar nosso espaço e, infelizmente, é ainda um espaço muito protagonizado por pais, famílias e tutores, a pessoa autista ainda tem muito pouca voz aqui no Brasil… aliás, não só no Brasil, né? Mas aqui essa questão do protagonismo está realmente bem no comecinho. Temos MUITO a fazer. Cada vez que somos lembrados como um dos tipos de deficiência, fico feliz. É uma coisa tão pequena, lembrarem que a gente existe, certo? Independentemente de saberem quem somos, quais as nossas necessidades e tudo mais, só o fato de o termo autismo (ou TEA) constar lá já me deixa feliz, porque sei que isso é resultado de muito trabalho e muita dedicação.

(…)

A.K. – O que você mais gostaria que as pessoas entendessem sobre o que é ter uma deficiência e o que você gostaria que mudasse no mundo a este respeito?

F.S. – Eu gostaria muito que as pessoas entendessem que ter uma deficiência não faz de ninguém incapaz. O modelo social de deficiência ainda é desconhecido pela maioria das pessoas, ele precisa ser assimilado. A partir do momento em que for assimilado, acredito que muitas portas vão começar a se abrir e as pessoas com deficiências vão começar a ter oportunidades… na escola, na faculdade, no mercado de trabalho! Isso é realmente importante para a conquista da autonomia.

A.K. – A ONU entende a deficiência com base no modelo social, ou seja, a deficiência existe porque o ambiente é excludente e não porque o indivíduo seja “defeituoso”. Você é otimista quanto ao futuro? Você acha que a sociedade está se esforçando para fazer o mundo mais acessível a todos e tornar esta exclusão cada vez menor?

F.S. – Eu acho que a sociedade está sendo obrigada a fazer do mundo um lugar mais acessível, e que temos ainda uma grande barreira, que é fazer as pessoas realmente se importarem, entenderem por que é importante, sabe? Isso é algo que por enquanto eu não vejo em praticamente lugar nenhum, e quando eu vejo, admito que fico surpresa. Vi isso acontecer na faculdade e foi muito legal: eles realmente se importaram em fazer o possível pra me incluir e garantir que eu teria todo o suporte necessário. Mas isso é uma exceção, acho que tive muita sorte, porque na maioria dos lugares não é assim, as pessoas só fazem se forem obrigadas. Quando superarmos isso, tudo vai ficar absolutamente mais fácil. Eu sou otimista sim, mas meu otimismo não vem da sociedade no geral, vem das pessoas com deficiência que eu tenho conhecido, eu acho que são elas que vão mudar o mundo.

Eu acho que uma das formas da gente conseguir isso é tornando a coisa toda pessoal (bem, é uma ideia minha, não tenho como garantir nada, mas realmente acredito nela). Quantas pessoas com deficiência você conhece? Quase ¼ da população brasileira tem algum tipo de deficiência. Outro dia eu estava pensando sobre isso e me dei conta que tenho várias pessoas com deficiência na família. Um dos meus avôs, agora já falecido, teve paralisia infantil, o outro escuta muito pouco. Me lembro de um primo do meu pai (acho que é primo, família grande, eu nunca sei) que é amputado, e outro que é surdo. Isso sem falar dos autistas, diagnosticadas somos só eu e minha irmã, mas meu pai também é, com certeza, e desconfio de mais gente.

Quantos desses se autodenominam (ou denominavam) pessoas com deficiência? Não sei! Mas tenho a impressão de que quando a gente começa a usar os termos corretos e contar pras pessoas como isso e aquilo é importante, das questões de acessibilidade e suporte, as pessoas começam a entender e sentir empatia. É diferente se você escuta isso de alguém totalmente desconhecido, ou se lê isso na internet, se vê em um documentário… não é pessoal. Se é um amigo seu que precisa, se é alguém da sua família… o peso é diferente. Aí entra a importância da gente conversar sobre esses assuntos abertamente. E não estou dizendo que é fácil, às vezes dá vontade de você esconder suas dificuldades, porque algumas delas são sim constrangedoras, outras você tem certeza que ninguém vai entender… então para que gastar energia compartilhando isso? Para tornar pessoal! Para fazer as pessoas pensarem, por isso. Vários colegas da faculdade têm me perguntado sobre Autismo, e eu tenho gostado de falar um pouco à respeito, acho que é uma forma muito eficaz de conscientizar as pessoas.

Link para a entrevista completa você encontra aqui.

Link para o blog Autismo em tradução, clique aqui.

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#Pracegover Foto de Fernanda Santana discursando na ONU (imagem do blog de Alexia Klein)

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