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A inclusão depende de você

10 de agosto de 2016 , In: Aprendendo com o autismo , With: 4 Comments
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Terça-feira, segunda semana de aula na nova escola e o filhote, que estava todo empolgado na semana anterior com as novidades, não quer mais entrar. Chora, esperneia, agarra em mim. “Não, mamain, não quero. Não quero a escolinha!”

Não sei exatamente o que aconteceu e faço conjecturas. Talvez tenha passado o brilho da novidade e ele esteja sentindo falta do conhecido, ou seja, da outra escola onde ele frequentou por três anos. Encontrar o ex-coleguinha na festinha de aniversário que teve sábado também pode ter despertado lembranças.

Na quarta pela manhã ele diz que quer ir para a escola antiga. Eu minto e digo que a escola fechou. Odeio mentir mas não vejo saída. Tento enumerar as coisas boas da nova escola, mas ele não quer escutar. Parece inseguro e assustado.

Lembro que, na segunda-feira, ao sair da escola, fui comunicada pelos próprios coleguinhas que ele tinha mordido um dos meninos. Ele me diz que levou um tapa dele. Faço ele pedir desculpas, o menino aceita mas conta que ele mordeu outro colega. Minha cara fica enorme de vergonha e não sei o que dizer. A dele também. Volto para casa preocupada e Leon sente isso, ficando amuado e pedindo colo o tempo todo.

Ele não consegue controlar ainda sua agressividade nos momentos em que fica desorganizado e ele mesmo se cobra muito por isso. Eu percebo e sinceramente não sei muito bem como agir. Cadê aquele manual de mãe que eu vim sem, cadê? E ainda ousam dizer que “filhos diferentes vêm para mães especiais”. Acho realmente que Deus errou de endereço, porque eu sou péssima. Não tenho nada de especial.

Lembro dos dias que passamos no Hotel Tauá de Araxá em julho e sua dificuldade em relacionar com as outras crianças na piscina. Seu jeito estranho (não sabe conversar direito, esbarra nas crianças a toda hora, é sem noção nas brincadeiras) afastava as crianças e ele sofreu bullying e até apanhou de um outro menino. E essa é a grande questão na inclusão da criança autista: ser aceita pelos outros colegas como ela é. Claro que o ambiente é importante e precisa ser adaptado para atender suas necessidades sensoriais, mas a aceitação é a chave para o sucesso da inclusão.

Se os outros colegas, seus pais, os educadores e toda a comunidade escolar ama meu filho e o aceita como ele é, ele irá se sentir realmente incluído. São esses os agentes da inclusão e é com eles que precisamos conversar e mostrar que ser diferente é apenas isso, ser diferente, não algo melhor ou pior.

Meu filho é o que ele é, com suas qualidades e defeitos. Ele não precisa se tornar outra pessoa para ser aceito e amado. É o ambiente e as pessoas que o cercam que precisam estar abertas para que ele se torne parte integrante e ativa desse todo que chamamos sociedade.

Meu coração de mãe sangra ao pensar em todas as dificuldades que ele ainda enfrentará em um mundo tão obcecado com padrões e regras. É preciso estar atenta e forte. Mas ao mesmo tempo eu sou uma otimista e acredito que existam mais pessoas como o Manuel, prontas para enxergar que o processo de inclusão depende do esforço coletivo e não de mudar quem não pode ser mudado.

A inclusão não depende do meu filho. Ela depende de você.

 

 

 

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  1. Responder

    Dri,
    Você é sim especial e não se desespere. Eu não sou mãe (só de cachorra e vivo enfiando os pés pelas mãos), mas ouço as mães à minha volta com vários questionamentos. O Leon é lindo e vamos lutar para que a sociedade mude. Já penso na criação dos meus filhos (se eu tiver) e o quanto eu acho importante mostrar às nossas crianças, que todo mundo é um ser único, isso não faz de ninguém diferente. Não sei se minhas palavras vão te ajudar, mas estou acompanhando e torcendo para tudo dar certo. Lembre-se: você é capaz! E nos dias ruins, escreve, desabafe, grite, vá para o quintal, mas não deixe esse sentimento tomar conta de você!

    • Responder

      Primeiro comentário no blog, sua linda! Obrigada, querida, sou especial nada, sou só uma pessoa infinitamente errada tentando aprender. Me acompanha sim, vem junto que no caminho a gente aprende junta! <3

  2. Responder

    Muito boa essa reflexão, Dri. De certa forma, eu me identifico com essa história. Dificuldade de interagir, bater pra resolver o que não se consegue resolver com a fala… parece que eu tô brincando, né. Mas não. Eu era isso mesmo. E é assim: depende da aceitação do outro mesmo, da falta de ideia preconcebida sobre como deve ser uma criança, pra olhar a criança que é e que tá ali. Beijo grande, aprendo sempre contigo.

    • Responder

      Comentário seu no blog fresquinho e eu demoro séculos pra ver, OMG. Obrigada, querida. E não, não imaginava você assim. Imagine se Leon crescer e virar uma Renata Lins? Que o Universo conspire! <3

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